Vamos mudar o mundo?
Às vezes você tem uma séria vontade de estapear as pessoas, só para fazê-las acordarem e perceberem as injustiças deste mundo. Como podem viver em seus mundinhos banais, quando há quem passe fome e totalmente à margem de qualquer conforto ou assistência? Esta talvez seja a sua maior revolta. Por isso, você tenta fazer a sua parte. Talvez por meio de um trabalho voluntário, participando de movimentos populares ou somente se exaltando em rodas de amigos menos engajados. De qualquer maneira, se você consegue de fato comover pessoas com seu discurso apaixonado e, ao mesmo tempo, baseado numa lógica de compaixão e igualdade que ninguém pode negar, você já fez a diferença.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Respeito!
"Respeito minhas raízes. O lar de onde vim e a casa onde moro. O que me alimenta. E as roupas que me vestem.
Respeito o meu corpo. O natural dos meus cabelos. Meu tipo físico. O formato do meu rosto. E a cor dos meus olhos.
Respeito a minha personalidade. A risada estranha que eu tenho. As lágrimas que aparecem espontaneamente. Os braços tão sempre carregados de abraços. E a teimosia de buscar sempre andar de mãos dadas com a liberdade.
Respeito os meus sonhos. O direito que tenho de lutar por aquilo que acredito. E mudar de opinião quando eu ver que aquilo que penso, já não faz mais sentido.
Respeito as músicas que ouço. Os livros que leio. Os momentos que fotografo. E filmes e peças de teatro que assisto.
Respeito o que sou. Respeito a minha essência, por ter consciência de que sou uma parte única no segredo do Universo.
E por saber da sua singularidade como um ser, dotado de vida, eu te respeito também."
▬ Miyahara, S.
Respeito o meu corpo. O natural dos meus cabelos. Meu tipo físico. O formato do meu rosto. E a cor dos meus olhos.
Respeito a minha personalidade. A risada estranha que eu tenho. As lágrimas que aparecem espontaneamente. Os braços tão sempre carregados de abraços. E a teimosia de buscar sempre andar de mãos dadas com a liberdade.
Respeito os meus sonhos. O direito que tenho de lutar por aquilo que acredito. E mudar de opinião quando eu ver que aquilo que penso, já não faz mais sentido.
Respeito as músicas que ouço. Os livros que leio. Os momentos que fotografo. E filmes e peças de teatro que assisto.
Respeito o que sou. Respeito a minha essência, por ter consciência de que sou uma parte única no segredo do Universo.
E por saber da sua singularidade como um ser, dotado de vida, eu te respeito também."
▬ Miyahara, S.
sábado, 9 de agosto de 2014
SER PAI …
Publicado em agosto 9, 2014
Pai de verdade mesmo sabe que ser pai não é simplesmente recolher o fruto de um momento de prazer, mas sim perceber o quanto pode ainda estar verde e ajudá-lo a amadurecer.
Pai de verdade mesmo não só ergue o filho do chão quando ele cai, mas também o faz perceber que a cada queda é possível levantar.
Ele não é simplesmente quem atende a caprichos: ele sabe perceber quando existe verdadeira necessidade nos pedidos.
Pai de verdade mesmo não é aquele que providencia as melhores escolas, mas o que ensina o quanto é necessário o conhecimento.
Ele não orienta com base nas próprias experiências, mas demonstra que em cada experiência existe uma lição a ser aprendida.
Pai de verdade mesmo não coloca modelos de conduta, mas aponta aqueles cujas condutas não devem ser seguidas.
Ele não sonha com determinada profissão para o filho, mas deseja grande e verdadeiro sucesso com sua real vocação.
Ele não quer que o filho tenha tudo que ele não teve, mas que tenha tudo aquilo que merecer e realmente desejar.
Pai de verdade mesmo não está ali só para colocar a mão no bolso para pagar as despesas: ele coloca a mão na consciência e percebe até que ponto está alimentando um espírito de dependência.
Ele não é um condutor de destinos, mas sim o farol que aponta para um caminho de honestidade e de bem.
Pai de verdade mesmo não diz “faça isto” ou “faça aquilo”, mas sim “tente fazer o melhor de acordo com o que você já sabe”.
Ele não acusa de erros e nem sempre aplaude os acertos, mas pergunta se houve percepção dos caminhos que levaram o filho a esses fins.
Pai de verdade mesmo é o amigo sempre presente, atento e amoroso – com a alma de joelhos – pedindo a Deus que o oriente na hora de dar conselhos.
Feliz Dia dos Pais!
quarta-feira, 30 de julho de 2014
“O amor que acende a lua”
“Quanto a mim, não desejo ser enterrado em ataúde. Sofro de
claustrofobia. A ideia de ficar trancado numa caixa me causa arrepios. Acho a cremação um lindo ritual. Neruda declarou que os poetas são feitos de fogo e fumaça. As cinzas, soltas ao vento, lançadas sobre o mar, colocadas ao pé de uma árvore, são símbolos da leveza, da liberdade e da vida. Teria de haver música, do canto gregoriano ao Milton. E poesia. Nada de poesia fúnebre. Cecília Meireles para dar tristeza. Fernando Pessoa para dar sabedoria. Vinicius de Moraes para falar de amor. Adélia Prado para fazer rir. E Walt Whitman para dar alegria. E comida. De aperitivo, Jack Daniel’s. Ainda vou contar a estória do Jack - estória de amizade. Comida de Minas. De entrada, sopa de fubá com alho, minha especialidade. Depois, frango com quiabo, angu e pimenta, a mais não poder. E, de sobremesa, minhas frutas favoritas, se sua estação for: caqui, manga, jabuticaba, banana-prata bem madura.
Coroas de flores mortas, nem pensar! Pedirei aos que me amam que semeiem flores em algum lugar - um vaso, um canteiro, a beira de um caminho. Se não for possível, que distribuam pacotinhos de sementes entre as crianças de alguma escola, entre os velhos de algum asilo. E, se for possível, uma árvore. Ah! Que linda prova de amor é plantar uma árvore para que alguém amado, ausente, possa se assentar à sua sombra.
Se você for primeiro do que eu, Carolina, prometo: não mandarei coroa. Mas plantarei uma flor.”
— Rubem Alves, no livro “O amor que acende a lua”
claustrofobia. A ideia de ficar trancado numa caixa me causa arrepios. Acho a cremação um lindo ritual. Neruda declarou que os poetas são feitos de fogo e fumaça. As cinzas, soltas ao vento, lançadas sobre o mar, colocadas ao pé de uma árvore, são símbolos da leveza, da liberdade e da vida. Teria de haver música, do canto gregoriano ao Milton. E poesia. Nada de poesia fúnebre. Cecília Meireles para dar tristeza. Fernando Pessoa para dar sabedoria. Vinicius de Moraes para falar de amor. Adélia Prado para fazer rir. E Walt Whitman para dar alegria. E comida. De aperitivo, Jack Daniel’s. Ainda vou contar a estória do Jack - estória de amizade. Comida de Minas. De entrada, sopa de fubá com alho, minha especialidade. Depois, frango com quiabo, angu e pimenta, a mais não poder. E, de sobremesa, minhas frutas favoritas, se sua estação for: caqui, manga, jabuticaba, banana-prata bem madura.
Coroas de flores mortas, nem pensar! Pedirei aos que me amam que semeiem flores em algum lugar - um vaso, um canteiro, a beira de um caminho. Se não for possível, que distribuam pacotinhos de sementes entre as crianças de alguma escola, entre os velhos de algum asilo. E, se for possível, uma árvore. Ah! Que linda prova de amor é plantar uma árvore para que alguém amado, ausente, possa se assentar à sua sombra.
Se você for primeiro do que eu, Carolina, prometo: não mandarei coroa. Mas plantarei uma flor.”
— Rubem Alves, no livro “O amor que acende a lua”
sábado, 5 de julho de 2014
Estar de bem com a vida!
Conheça as pistas que nos fazem seguir pelo caminho da felicidade para ficar de bem com a vida ou da amargura
Gente de bem com a vida percebe que a felicidade é um estado interior que não precisa ser prejudicado pelo que acontece fora de nós
Ilustração: Eder Redder
Ilustração: Eder Redder
"Cuidado, a vida é pra valer. E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo, que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada embaixo: Deus! e com firma reconhecida."
A frase acima só podia ser de um poeta transgressor como Vinícius de Moraes. É uma das partes faladas do Samba da Bênção, que ele compôs e Baden Powell musicou. Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus versos, da arte de viver. Pede bênção aos amigos e diz que já viajou muitas canções, mas que ainda há muitas para viajar.
Os versos de nosso "poetinha" resumem como poucos a dupla função da poesia: agrada aos sentidos e faz pensar. "Cuidado, a vida é pra valer", não é algo a ser desperdiçado, até porque, "não se engane não, tem uma só". Por isso temos que estar de bem com ela.
Estar de bem com a vida. Esse é um tema que ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo da filosofia. "Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão", disse Nietzsche, para depois admitir que invejava a leveza desses seres. "Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arranca lágrimas e canções", completou. Pois até o mal-humorado filósofo alemão admitiu que há virtude em buscar a paz com o viver.
E o que é estar de bem com a vida senão a capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel. Todos sofremos com as perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o estado da alma.
Não me agrada o discurso fácil da autoajuda que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um estado definitivo, e com certeza não é um lugar aonde se pode chegar. Por outro lado, não me agrada também a condição das "vítimas do sistema", que se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado.
Conheço pessoas que souberam lidar bem com as dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana. Mas essa não é a questão. Não me refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.
Encontrei pessoas de bem com a vida nas grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei-as também em pequenas vilas do interior ou do litoral. Em lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranquilidade e em tempos de crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.
Este talvez seja um dos grandes mistérios da psicologia humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua genética ou terá sido sua educação?
Lembro-me de meus colegas de colégio. Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser médico. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante e ter um monte de namoradas, claro. Afinal, éramos todos adolescentes, cheios de espinhas e de sonhos.
Havia ali os futuros engenheiros, advogados, empresários, e até um diplomata. E havia Fabinho. Ele não tinha planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser na vida, ele respondia com um sorriso: "Eu quero é ser feliz". E eu via sinceridade em sua afirmação.
O Fabinho era desses garotos raros que, ao contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha inimigos, não se empatotava para odiar a outra "patota". Não se queixava das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava de letra.
Fabinho não era rico, nem bonito, nem atleta talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida.
A frase acima só podia ser de um poeta transgressor como Vinícius de Moraes. É uma das partes faladas do Samba da Bênção, que ele compôs e Baden Powell musicou. Enaltecendo a beleza do samba e a aventura do amor, ele fala mesmo, em seus versos, da arte de viver. Pede bênção aos amigos e diz que já viajou muitas canções, mas que ainda há muitas para viajar.
Os versos de nosso "poetinha" resumem como poucos a dupla função da poesia: agrada aos sentidos e faz pensar. "Cuidado, a vida é pra valer", não é algo a ser desperdiçado, até porque, "não se engane não, tem uma só". Por isso temos que estar de bem com ela.
Estar de bem com a vida. Esse é um tema que ultrapassa o terreno estéril das frases de efeito e chega ao território fecundo da filosofia. "Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão", disse Nietzsche, para depois admitir que invejava a leveza desses seres. "Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que, de mim, arranca lágrimas e canções", completou. Pois até o mal-humorado filósofo alemão admitiu que há virtude em buscar a paz com o viver.
E o que é estar de bem com a vida senão a capacidade de manter um estado de alegria a despeito das vicissitudes da própria? É claro que a vida é dura, injusta e muitas vezes cruel. Todos sofremos com as perdas e com as angústias próprias do viver, mas não é disso que estamos falando. As condições externas influem, sim, mas o tema aqui é o estado da alma.
Não me agrada o discurso fácil da autoajuda que insiste que você tem a obrigação de ser feliz. Não, felicidade não é uma obrigação nem uma competência. Não é uma alienação. Felicidade nem sequer é um estado definitivo, e com certeza não é um lugar aonde se pode chegar. Por outro lado, não me agrada também a condição das "vítimas do sistema", que se orgulham de sua amargura e a exibem como um troféu conquistado.
Conheço pessoas que souberam lidar bem com as dificuldades naturais de suas existências e conheço outras que se transformaram em vítimas tristes nas mesmas condições. É claro que há situações de extrema dificuldade, e negar a tristeza que vem junto é negar a própria condição humana. Mas essa não é a questão. Não me refiro às tragédias, e sim às dificuldades corriqueiras, que impregnam nosso cotidiano como o musgo na face sul do tronco das árvores, e que podem, com o tempo, apagar o brilho de viver. A menos que não se deixe que isso aconteça.
Encontrei pessoas de bem com a vida nas grandes cidades, trabalhando em imensas corporações. Encontrei-as também em pequenas vilas do interior ou do litoral. Em lugares pobres e em lugares ricos. Em tempos de tranquilidade e em tempos de crise. Ou seja, em todos os lugares. E também encontrei pessoas de mal com a vida. Onde? Exatamente nos mesmos lugares.
Este talvez seja um dos grandes mistérios da psicologia humana. O que faz a diferença entre esses dois tipos de indivíduos? Será sua genética ou terá sido sua educação?
Lembro-me de meus colegas de colégio. Estávamos todos naquela fase de definir o futuro, de escolher a faculdade, de sonhar com o sucesso. Eu, por exemplo, já tinha me decidido: queria ser médico. E também queria ser rico, famoso, comprar um carrão, viajar bastante e ter um monte de namoradas, claro. Afinal, éramos todos adolescentes, cheios de espinhas e de sonhos.
Havia ali os futuros engenheiros, advogados, empresários, e até um diplomata. E havia Fabinho. Ele não tinha planos grandiosos, não queria ficar rico nem famoso. Quando alguém lhe perguntava o que queria ser na vida, ele respondia com um sorriso: "Eu quero é ser feliz". E eu via sinceridade em sua afirmação.
O Fabinho era desses garotos raros que, ao contrário da maioria, não parecia estar em guerra contra o mundo. Não tinha inimigos, não se empatotava para odiar a outra "patota". Não se queixava das exigências dos professores nem da dureza das provas, que, aliás, ele tirava de letra.
Fabinho não era rico, nem bonito, nem atleta talentoso. Ele era como a maioria, com virtudes e fragilidades. Era como eu, só que ele tinha algo que lhe era singular. Ele parecia estar de bem com a vida.
De bem com o tempo
Encontrei, como já disse, muitos Fabinhos pela vida afora, como também encontrei seus opostos, os amargurados crônicos. Qual o segredo? Não sei, mas, para começo de conversa, estou certo de quenão existe uma fórmula para ser feliz - e, se existir, ainda que seja apenas uma pista, com certeza ela é pessoal e intransferível.
Entretanto, pessoas de bem com a vida têm, sim, algo a nos ensinar. A primeira lição é que elas não caem na armadilha fácil da felicidade imediata, aquela que é confundida com o prazer descartável, nem transformam a felicidade em um eterno projeto futuro. Gente de bem com a vida percebe que felicidade é um estado interior que não precisa ser prejudicado pelo que acontece fora de nós, e também se dá conta que, se a única coisa que existe de fato é o presente, o futuro vai virar presente e, quando isso acontecer, ele será tão melhor ou tão pior dependendo das providências que tomarmos no presente atual.
Há um quê de sabedoria nessa postura, e um monte de inteligência aplicada ao bem viver, pois, em síntese, quer dizer que temos que viver o presente com um olho posto no futuro, aproveitar cada instante como se fosse único e, ao mesmo tempo, organizar-se para o dia de amanhã para não ser tomado de assalto por notícias ruins nas esquinas da vida. Então é isso, estar de bem com o tempo.
Entretanto, pessoas de bem com a vida têm, sim, algo a nos ensinar. A primeira lição é que elas não caem na armadilha fácil da felicidade imediata, aquela que é confundida com o prazer descartável, nem transformam a felicidade em um eterno projeto futuro. Gente de bem com a vida percebe que felicidade é um estado interior que não precisa ser prejudicado pelo que acontece fora de nós, e também se dá conta que, se a única coisa que existe de fato é o presente, o futuro vai virar presente e, quando isso acontecer, ele será tão melhor ou tão pior dependendo das providências que tomarmos no presente atual.
Há um quê de sabedoria nessa postura, e um monte de inteligência aplicada ao bem viver, pois, em síntese, quer dizer que temos que viver o presente com um olho posto no futuro, aproveitar cada instante como se fosse único e, ao mesmo tempo, organizar-se para o dia de amanhã para não ser tomado de assalto por notícias ruins nas esquinas da vida. Então é isso, estar de bem com o tempo.
De bem com o básico
Mas tem mais. É necessário equipar-se com alguns artigos de primeira necessidade para alimentar a felicidade, nada muito complicado, acredite. Algumas coisas são óbvias, mas invisíveis como o ar, que só é percebido quando falta. A saúde, por exemplo. Então é melhor cuidar da dita-cuja, pois não dá para ser feliz e doente ao mesmo tempo, e não importa a fase da vida. O mesmo se dá com o dinheiro. É parecido com o ar e a saúde, só damos valor a ele quando falta. O ditado popular insiste, há séculos, que dinheiro não traz felicidade. Estou inclinado a acreditar nisso até certo ponto, pois, se o dinheiro não o faz feliz, a falta dele, provavelmente, vai lhe tirar o sono e prejudicar sensivelmente a felicidade interna bruta.
Resolvidos os requisitos básicos, que atrapalham a busca da felicidade se estiverem ausentes, é hora de cuidar dos ingredientes da verdadeira felicidade, aquela que dá gosto de sentir. E eles são pelo menos três: o que fazemos para viver, como gastamos nosso tempo livre e, talvez o mais importante, com quem compartilhamos tudo isso.
Resolvidos os requisitos básicos, que atrapalham a busca da felicidade se estiverem ausentes, é hora de cuidar dos ingredientes da verdadeira felicidade, aquela que dá gosto de sentir. E eles são pelo menos três: o que fazemos para viver, como gastamos nosso tempo livre e, talvez o mais importante, com quem compartilhamos tudo isso.
De bem com o que se faz
O que fazemos para viver, evidentemente, é nosso trabalho. Ele nos dá o sustento e a dignidade, mas pode nos dar mais, pode dar o verdadeiro sentido da vida. Todos os trabalhos são dignos, mas temos que ouvir nossa vocação e perceber o significado daquilo que fazemos. Assim, teremos não só um trabalho, mas uma carreira; e não realizaremos apenas tarefas, mas causas. Não acho que alguém, para quem o trabalho seja um peso, possa ser feliz de fato. Você se contentaria em ser feliz só depois do expediente e, ainda por cima, odiar a vinheta do Fantástico, que é o prenúncio da segunda-feira?
Cuidar do tempo livre é ter disposição para se divertir. O prazer, a alegria, a diversão são tão importantes quanto seu trabalho ou o estudo. É desse equilíbrio que sai o caldo de cultura que vai alimentar a felicidade. E curtir a vida tem mais uma vantagem: quando você ficar velho, terá boas lembranças como lenitivo para a vida mais recolhida.
Cuidar do tempo livre é ter disposição para se divertir. O prazer, a alegria, a diversão são tão importantes quanto seu trabalho ou o estudo. É desse equilíbrio que sai o caldo de cultura que vai alimentar a felicidade. E curtir a vida tem mais uma vantagem: quando você ficar velho, terá boas lembranças como lenitivo para a vida mais recolhida.
De bem com os outros
Por último, mas muito longe de ser menos importante, estão as relações humanas. Biologicamente, não estamos preparados para a solidão, que só é boa quando é por opção e, ainda assim, por pouco tempo. Ter amigos, curtir a família, cultivar boas relações com seus colegas de trabalhos e vizinhos do condomínio. As boas relações nos fazem felizes, sim, alimentam nosso espírito gregário, nos fazem perceber que somos queridos, geram autoestima.
Entretanto, é bom que se diga, há uma relação humana especial, que tem um imenso poder de agregar felicidade, que transforma silêncio em música, folha em flor, distância em saudade, toque em sedução, sorriso em esperança. Estou falando da pessoa especial que está a seu lado, seu companheiro, sua companheira de jornada. Estou falando do amor verdadeiro, que existe, sim, e é bom, muito bom.
Não conheço os detalhes da vida do Fabinho, mas quem me fala sobre ele relata que ele tem andado por aí com aquela cara que só os apaixonados têm, um misto de paz e entusiasmo, a combinação pra lá de perfeita. No fundo, no fundo, não é difícil ser feliz, mas dá um certo trabalhinho cuidar desses detalhes.
E o incontrolável? O fator acaso existe, afinal? Claro que existe, mas seu potencial para gerar felicidade é diretamente proporcional à atenção e inversamente proporcional ao descaso. Já se disse que o acaso tem sempre a última palavra. Mas podemos rever esse conceito, afinal, a última palavra pode estar com cada um de nós, e é dita por aquilo que fazemos com o que o acaso fez conosco. É a isso que se chama estar de bem com a sorte.
Entretanto, é bom que se diga, há uma relação humana especial, que tem um imenso poder de agregar felicidade, que transforma silêncio em música, folha em flor, distância em saudade, toque em sedução, sorriso em esperança. Estou falando da pessoa especial que está a seu lado, seu companheiro, sua companheira de jornada. Estou falando do amor verdadeiro, que existe, sim, e é bom, muito bom.
Não conheço os detalhes da vida do Fabinho, mas quem me fala sobre ele relata que ele tem andado por aí com aquela cara que só os apaixonados têm, um misto de paz e entusiasmo, a combinação pra lá de perfeita. No fundo, no fundo, não é difícil ser feliz, mas dá um certo trabalhinho cuidar desses detalhes.
E o incontrolável? O fator acaso existe, afinal? Claro que existe, mas seu potencial para gerar felicidade é diretamente proporcional à atenção e inversamente proporcional ao descaso. Já se disse que o acaso tem sempre a última palavra. Mas podemos rever esse conceito, afinal, a última palavra pode estar com cada um de nós, e é dita por aquilo que fazemos com o que o acaso fez conosco. É a isso que se chama estar de bem com a sorte.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
sábado, 8 de março de 2014
Me chamem de velha.
Por ELIANE BRUM
A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem.
Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.
Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.
A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.
Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interessante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum. Que ninguém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.
A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.
Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor. Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.
Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua. O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.
Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.
Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.
Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”? Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam...”.
Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.
Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem. O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para descobrir com quem estão falando. Mas se existe algo bom em envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é grande.
Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada do que sou hoje.
Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.
Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.
Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.
sábado, 25 de janeiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
"Todo filho é pai da morte de seu pai" Fabrício Carpinejar
"Feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece
somente no enterro e não se despede um pouco por dia."
Há uma quebra na história
Há uma quebra na história
familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem
sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai. É quando o pai envelhece e começa
a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso. É
quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar
sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e
demora o dobro da respiração para sair de seu lugar. É quando aquele pai, que
antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a
porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe. É quando aquele pai, antes
disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus
remédios. E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar
que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de
nossa vida para morrer em paz. Todo filho é pai da morte de seu pai. Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez.
Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados
ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta. E assim como
mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando
cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais. Uma das
primeiras transformações acontece no banheiro. Seremos pais de nossos pais na
hora de pôr uma barra no box do chuveiro. A barra é emblemática. A barra é
simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas. Porque o chuveiro, simples e
refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não
podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas
paredes. A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões. Pois envelhecer é
andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus. Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente? Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete. E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia. Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos. No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira: — Deixa que eu ajudo. Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo. Colocou o rosto de seu pai contra seu peito. Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo. Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável. Embalou o pai de um lado para o outro. Aninhou o pai. Acalmou o pai. E apenas dizia, sussurrado: — Estou aqui, estou aqui, pai! O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
DESEJO DE ANO NOVO!
"...Quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
Que não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
Não foge de sua mortalidade,
Defende a dignidade dos marginalizados,
E deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena.''
Rubem Alves
muito humana; que sabe rir de seus tropeços,
Que não se encanta com triunfos,
não se considera eleita antes da hora,
Não foge de sua mortalidade,
Defende a dignidade dos marginalizados,
E deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse
amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena.''
Rubem Alves
sábado, 28 de dezembro de 2013
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
NATAL!
*Natal somos nós quando decidimos nascer de novo, a cada dia, nos transformando. Somos o pinheiro de natal quando resistimos vigorosamente aos tropeços da caminhada. Somos os enfeites de natal quando nossas virtudes, nossos atos, são cores que adornam. Somos os sinos do natal quando chamamos, congregamos e procuramos unir. Somos luzes do natal quando simplificamos e damos soluções. Somos presépios do natal quando nos tomamos pobres para enriquecer a todos. Somos os anjos do natal quando cantamos ao mundo o amor e a alegria. Somos os pastores de natal quando enchemos nossos corações vazios com Aquele que tudo tem. Somos estrelas do natal quando conduzimos alguém ao Senhor. Somos os Reis Magos quando damos o que temos de melhor, não importando a quem. Somos as velas do natal quando distribuímos harmonia por onde passamos Somos Papai Noel quando criamos lindos sonhos nas mentes infantis. Somos os presentes de natal quando somos verdadeiros amigos para todos. Somos cartões de natal quando a bondade está escrita em nossas mãos. Somos as missas do natal quando nos tomamos louvor, oferenda e comunhão. Somos as ceias do natal quando saciamos de pão, de esperança, qualquer pobre do nosso lado. Somos as festas de natal quando nos despimos do luto e vestimos a gala. Somos sim, a Noite Feliz do Natal, quando humildemente e conscientemente, mesmo sem símbolos e aparatos, sorrimos com confiança e ternura na contemplação interior de um natal perene que estabelece seu Reino em nós. Obrigado Jesus! Por vossa luz, perdão e compreensão. Feliz Natal, Amigo!* Autor Desconhecido
domingo, 22 de dezembro de 2013
O TEMPO E AS JABUTICABAS!
Ricardo Gondim
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos a limpo". Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena.
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas, percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo.
Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos a limpo". Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos".
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
O essencial faz a vida valer a pena.
sábado, 30 de novembro de 2013
Dicas do Dalai Lama
Dê mais às pessoas, MAIS do que elas esperam, e faça com alegria.
· Decore seu poema favorito.
· Não acredite em tudo que você ouve, gaste tudo o que você tem e durma tanto quanto você queira.
· Quando disser "Eu te amo" olhe as pessoas nos olhos.
· Fique noivo pelo menos seis meses antes de se casar.
· Acredite em amor à primeira vista.
· Nunca ria dos sonhos de outras pessoas.
· Ame profundamente e com paixão.
· Você pode se machucar, mas é a única forma de viver a vida completamente.
· Em desentendimento, brigue de forma justa, não use palavrões.
· Não julgue as pessoas pelo seus parentes.
· Fale devagar mas pense com rapidez.
· Quando alguém perguntar algo que você não quer responder, sorria e pergunte: "Porque você quer saber?".
· Lembre-se que grandes amores e grandes conquistas envolvem riscos.
· Ligue para sua mãe.
· Diga "saúde" quando alguém espirrar.
· Quando você se deu conta que cometeu um erro, tome as atitudes necessárias.
· Quando você perder, não perca a lição.
· Lembre-se dos três Rs: Respeito por si próprio, respeito ao próximo e responsabilidade pelas ações.
· Não deixe uma pequena disputa ferir uma grande amizade.
· Sorria ao atender o telefone, a pessoa que estiver chamando ouvirá isso em sua voz.
· Case com alguém que você goste de conversar. Ao envelhecerem suas aptidões de conversação serão tão importantes quanto qualquer outra.
· Passe mais tempo sozinho.
· Abra seus braços para as mudanças, mas não abra mão de seus valores.
· Lembre-se de que o silêncio, às vezes, é a melhor resposta.
· Leia mais livros e assista menos TV.
· Viva uma vida boa e honrada. Assim, quando você ficar mais velho e olhar para trás, você poderá aproveitá-la mais uma vez.
· Confie em Deus, mas tranque o carro.
· Uma atmosfera de amor em sua casa é muito importante. Faça tudo que puder para criar um lar tranquilo e com harmonia.
· Em desentendimento com entes queridos, enfoque a situação atual.
· Não fale do passado.
· Leia o que está nas entrelinhas.
· Reparta o seu conhecimento. É uma forma de alcançar a imortalidade.
· Seja gentil com o planeta.
· Reze. Há um poder incomensurável nisso.
· Nunca interrompa enquanto estiver sendo elogiado.
· Cuide da sua própria vida.
· Não confie em alguém que não fecha os olhos enquanto beija.
· Uma vez por ano, vá a algum lugar onde nunca esteve antes.
· Se você ganhar muito dinheiro, coloque-o a serviço de ajudar os outros, enquanto você for vivo. Esta é a maior satisfação de riqueza.
· Lembre-se que o melhor relacionamento é aquele em que o amor de um pelo outro é maior do que a necessidade de um pelo outro.
· Julgue seu sucesso pelas coisas que você teve que renunciar para conseguir.
· Lembre-se de que seu caráter é seu destino.
· Usufrua o amor e a culinária com abandono total.
(Dalai Lama)
· Decore seu poema favorito.
· Não acredite em tudo que você ouve, gaste tudo o que você tem e durma tanto quanto você queira.
· Quando disser "Eu te amo" olhe as pessoas nos olhos.
· Fique noivo pelo menos seis meses antes de se casar.
· Acredite em amor à primeira vista.
· Nunca ria dos sonhos de outras pessoas.
· Ame profundamente e com paixão.
· Você pode se machucar, mas é a única forma de viver a vida completamente.
· Em desentendimento, brigue de forma justa, não use palavrões.
· Não julgue as pessoas pelo seus parentes.
· Fale devagar mas pense com rapidez.
· Quando alguém perguntar algo que você não quer responder, sorria e pergunte: "Porque você quer saber?".
· Lembre-se que grandes amores e grandes conquistas envolvem riscos.
· Ligue para sua mãe.
· Diga "saúde" quando alguém espirrar.
· Quando você se deu conta que cometeu um erro, tome as atitudes necessárias.
· Quando você perder, não perca a lição.
· Lembre-se dos três Rs: Respeito por si próprio, respeito ao próximo e responsabilidade pelas ações.
· Não deixe uma pequena disputa ferir uma grande amizade.
· Sorria ao atender o telefone, a pessoa que estiver chamando ouvirá isso em sua voz.
· Case com alguém que você goste de conversar. Ao envelhecerem suas aptidões de conversação serão tão importantes quanto qualquer outra.
· Passe mais tempo sozinho.
· Abra seus braços para as mudanças, mas não abra mão de seus valores.
· Lembre-se de que o silêncio, às vezes, é a melhor resposta.
· Leia mais livros e assista menos TV.
· Viva uma vida boa e honrada. Assim, quando você ficar mais velho e olhar para trás, você poderá aproveitá-la mais uma vez.
· Confie em Deus, mas tranque o carro.
· Uma atmosfera de amor em sua casa é muito importante. Faça tudo que puder para criar um lar tranquilo e com harmonia.
· Em desentendimento com entes queridos, enfoque a situação atual.
· Não fale do passado.
· Leia o que está nas entrelinhas.
· Reparta o seu conhecimento. É uma forma de alcançar a imortalidade.
· Seja gentil com o planeta.
· Reze. Há um poder incomensurável nisso.
· Nunca interrompa enquanto estiver sendo elogiado.
· Cuide da sua própria vida.
· Não confie em alguém que não fecha os olhos enquanto beija.
· Uma vez por ano, vá a algum lugar onde nunca esteve antes.
· Se você ganhar muito dinheiro, coloque-o a serviço de ajudar os outros, enquanto você for vivo. Esta é a maior satisfação de riqueza.
· Lembre-se que o melhor relacionamento é aquele em que o amor de um pelo outro é maior do que a necessidade de um pelo outro.
· Julgue seu sucesso pelas coisas que você teve que renunciar para conseguir.
· Lembre-se de que seu caráter é seu destino.
· Usufrua o amor e a culinária com abandono total.
(Dalai Lama)
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
COUVE – UM SANTO REMÉDIO
A couve, chamada cientificamente Brassica oleracea L., é uma verdura que pode ser utilizada como planta medicinal pois ajuda a combater uma série de doenças.
Ingrediente indispensável da brasileiríssima feijoada e do caldo verde, que herdamos de Portugal, a couve, além de ser barata e fácil de encontrar em todo o país, oferece vários benefícios. Surpresa? A questão é quanto mais os especialistas estudam essa verdura, mais surgem vantagens. Chega a parecer uma bula de remédio: a couve é antiinflamatória e cicatrizante. E, super importante, ajuda a fixar o cálcio nos ossos.
De onde vêm esses poderes? Dos glicosinolatos, fitoquímicos naturais que, por terem ação desintoxicante, estimulam o organismo a se livrar até mesmo das substâncias cancerígenas, além de fortalecer o sistema imunológico. A partir daí, tudo funciona melhor. Quando você coloca a verdura no prato, também se serve de uma variedade incrível de vitaminas e minerais que, combinados aos fitoquímicos, favorece a absorção dos outros nutrientes da refeição, especialmente do cálcio.
A Couve é fonte de Vitamina C
A couve é abundante em vitamina C. Você ficará surpreso ao saber que a couve tem mais vitamina C do que as laranjas. A vitamina C, sendo um dos melhores antioxidantes, reduz os radicais livres no organismo, que são as causas básicas do envelhecimento.
Assim, a couve é muito útil no tratamento de úlceras, certos cânceres, depressões, para o fortalecimento do sistema imunológico e combate à tosse e ao resfriado, cicatrização de feridas e tecidos danificados, o bom funcionamento do sistema nervoso e, assim, ajudar a curar a doença de Alzheimer, etc
A Couve é rica em Fibra
A couve é muito rico em fibra. Assim, é um bom remédio para a prisão de ventre e problemas relacionados.
A Couve é benéfica para o cérebro
A couve, sendo rica em iodo, ajuda no bom funcionamento do cérebro e do sistema nervoso, além de manter as glândulas endócrinas em bom estado. Assim, é bom para o cérebro e tratamento dos transtornos neuróticos como a doença de Alzheimer.
Os nutrientes presentes na couve tais como a vitamina E, que mantém a pele, olhos e cabelos saudáveis, cálcio, magnésio, potássio, etc, são muito úteis para a saúde em geral.
A Couve promove a saúde gastrointestinal
As pesquisas recentes têm aumentado bastante a compreensão dos cientistas de como vegetais da família Brassica como a couve, couve-flor, brócolos, couve e couve de Bruxelas pode ajudar a prevenir cancro do cólon.
Quando estes vegetais são cortados, mastigados ou digeridos, um composto contendo enxofre chamado sinigrin é colocado em contato com a enzima mirosinase, resultando na libertação de glicose e produtos de degradação, incluindo compostos altamente reactivos chamados isotiocianatos.
A Couve Promove a Saúde da mulher
Muitas investigações têm incidido sobre os fitonutrientes benéficos na couve, particularmente o 3-carbinole (I3C), sulforafano e indóis.
Estes dois compostos activam e ajudam a estabilizar os antioxidantes do organismo e os mecanismos de desintoxicação que eliminam substâncias que podem causar cancro. I3C ajuda a melhorar a desintoxicação do estrógeno e reduz a incidência de cancro da mama.
A Couve combate a úlcera péptica
O Sumo de couve é bem é extremamente eficaz no tratamento de úlceras pépticas. O alto teor de glutamina, um aminoácido que é o combustível preferido para as células do estômago e intestino delgado, é provável ser a razão pela qual o sumo de couve é eficaz na cura de úlceras.
A Couve protege contra a doença de Alzheimer
Na doença de Alzheimer, um aumento da produção ou da acumulação de uma proteína chamada beta-amilóide resulta em danos cerebrais e morte da célula oxidativa (radicais livres de stress).
Os antioxidantes Polifenóis abundantes na couve roxa, em especial as antocianinas, podem proteger as células do cérebro contra os danos causados pela proteína beta-amilóide, sugere um estudo publicado em Food Science and Technology.
Couve roxa contém significativamente mais fitonutrientes protectores do que a couve branca:
A capacidade antioxidante da couve roxa é de seis a oito vezes maior do que a da couve branca.
A capacidade antioxidante da couve roxa é de seis a oito vezes maior do que a da couve branca.
Modo de uso da couve
A couve pode ser utilizada crua, cozida ou refogada, em forma de suco ou compressa. Para preservar suas propriedades medicinais aconselha-se seu consumo cru ou cozida à vapor.
- Suco de couve: Bater no liquidificador 3 fatias grossas de abacaxi com 2 folhas de couve. Adoçar à gosto e beber a seguir.
Efeitos colaterais da couve
Pode causar gases em alguns indivíduos.
Informação Nutricional
| Componentes | Quantidade por 100g de couve |
| Energia | 16 kcal |
| Água | 92,7 g |
| Proteínas | 2,2 g |
| Gordura | 0,2 g |
| Carboidratos | 1,4 g |
| Fibras | 2,9 g |
| Vitamina A | 104 mcg |
| Vitamina C | 44 mg |
| Ácido Fólico | 70 mcg |
| Sódio | 103 mg |
| Potássio | 202 mg |
Por: Cibele Santos – Nutricionista, Taróloga e Terapeuta Xamânica
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Como morrem os médicos!
Sobre lucro assustador que indústria de assistência média aufere, prolongando a vida com aparelhos, à custa do sofrimento do paciente e familiares
No blog Socialista Morena | Imagens: Quino
Escritores octogenários que entrevistei coincidiram em dizer que o duro na vida não é envelhecer, mas enterrar os amigos, aguentar a saudade deles que fica. Você começa a encarar a morte de perto. Suponho que a isso se chame amadurecer. E dói.
Dizem as estatísticas que a média de idade das pessoas subiu, mas a realidade ao lado da gente desmente a estatística. Cada vez que uma pessoa querida se vai, fico pensando na forma como nós encaramos a morte e como a medicina tradicional nos trata no final de nossas vidas. Será que não existe uma maneira menos sofrida?
Pesquisando sobre o tema, encontrei, em um dos meus sites de jornalismo independente favoritos, o Alternet, um artigo do mês passado muito esclarecedor, que traduzi, adaptei e publico para vocês, sobre como os médicos norte-americanos planejam a própria morte. E a imensa maioria opta por não fazer os tratamentos invasivos que eles mesmos indicam a seus pacientes, preferindo cuidados paliativos.
Os cuidados paliativos são um conceito em ascensão no mundo mas que engatinha no Brasil por desinteresse da classe médica. É chamado de hospice ou “casas para os que morrem”: centros voltados para a melhoria da qualidade de vida de pacientes diagnosticados com doenças incuráveis. Para que possam passar seus derradeiros momentos no mundo tranquilos, assistidos, da maneira menos dolorosa possível, cercado pelos familiares, em vez de tentando procedimentos invasivos –e inócuos– até o fim.
(Há um bom artigo científico sobre o movimento hospice, inclusive no Brasil, aqui.)
Esta reportagem aborda também o lucro que o prolongamento da vida com o uso de aparelhos dá à indústria da assistência médica, à custa do sofrimento do paciente e dos familiares. Leiam. Espero que seja útil para alguns de vocês.
***
O segredo dos médicos para morrer direito
–Por que médicos fazem escolhas diferentes que a maioria de nós no final da vida?
Por Melinda Welsh, Sacramento News & Review
O dr. Ken Murray escreveu um artigo para a revista online Zócalo Public Square pensando que, com sorte, atrairia algumas dúzias de leitores e um comentário ou dois. Em vez disso, o médico recebeu uma avalanche de respostas. Na verdade, o que ele escreveu o colocou no meio de um debate sobre a vida, a morte e médicos.
O que ele revelou de tão avassalador?
Revelou que a imensa maioria dos médicos faz escolhas para o fim da vida dramaticamente diferentes do resto de nós. Dito de uma forma simples, a maioria dos médicos escolhe conforto e calma em vez de intervenções ou tratamentos agressivos Visto de outra maneira, médicos rotineiramente ordenam procedimentos aos pacientes no fim da vida que eles não escolheriam para si mesmos.
O que os médicos fazem e o resto de nós não?
De acordo com Murray, os médicos veem as limitações da medicina moderna de perto e sabem que as tentativas de prolongar uma vida podem frequentemente levar a uma morte prolongada, sofrida.
O livro de 2011 de Murray, How Doctors Die (Como Médicos Morrem), foi traduzido em vários idiomas e recebeu resenhas do The New York Times, The Wall Street Journal e The Washington Post. Milhares de pessoas comentaram nas páginas de leitores dos jornais e blogs que as reproduziram. Leitores falaram sobre “familiares à beira da morte sendo atacados por drogas tóxicas”, disse Murray, ofertas de “procedimentos dolorosos por nenhuma razão”. Entre as respostas estavam centenas de histórias de médicos e cuidadores profissionais que confirmavam a tese de Murray.
“Muitas das histórias eram desoladoras”, disse.
Dados que provam isso não são difíceis de encontrar. Murray cita o Johns Hopkins Precursors Study, uma das maiores pesquisas
sobre envelhecer no mundo, que contém estatísticas de saúde em um grupo de aproximadamente 750 médicos que eram membros da Johns Hopkins University School of Medicine em Baltimore entre 1948 e 1964. Através dos anos, o estudo ajudou a pesquisa médica a relacionar, por exemplo, colesterol alto com ataques cardíacos. Mas 15 anos atrás –com seus participantes em seus 60, 70 e 80 anos– os pesquisadores começaram a perguntar sobre escolhas terminais.
Dr. Joseph Gallo, diretor do Precursors Study, estava feliz de explicar como os dados mostram continuamente que médicos –por uma ampla maioria– fazem diferentes escolhas quando confrontados com diagnósticos desesperadores. Médicos que escolhem menos procedimentos também tendem a facilitar as chamadas “diretivas antecipadas de vontade”, uma importante parte da papelada que permite aos pacientes escolher um procurador e determinar antecipadamente que intervenções querem ou não em caso de acontecer um declínio em sua saúde. No Brasil isso ainda não é regulamentado (leia sobre o movimento pela regulamentação da Ordem de Não Reanimar aqui.)
Em um cenário onde o grupo de estudo foi questionado sobre o que desejaria no caso de uma doença cerebral irreversível que os deixasse incapazes de reconhecer pessoas ou falar, “a maioria das pessoas quer tudo”, disse Gallo, enquanto 90% dos médicos disseram não à ventilação mecânica (aparelhos de respiração artificial) e à hemodiálise. Cerca de 80% dos médicos disseram também não a uma cirurgia de grande porte ou a um tubo de alimentação, disse.
“Isto sugere que quanto mais familiar você é com intervenções, menos você quer”, Gallo disse, direto ao ponto.
Murray crê que a culpa pela ruptura se deve a três fatores: má comunicação do médico com o paciente, expectativas irreais dos pacientes e suas famílias e um sistema de saúde que encoraja tratamento excessivo. (Nota: um quarto de todos os gastos com saúde ocorre no último ano de vida das pessoas.)
‘Não me entube’
Quando se considera o grande número de mortes que o Dr. James Gregor testemunhou em décadas como especialista em cuidados paliativos e em casas de repouso de Sacramento, é comovente vê-lo tomado pela emoção ao contar a história de Ella.
Idosa diagnosticada com uma doença terminal, Ella (não é seu verdadeiro nome) tinha fortes convicções sobre não ter nenhuma intervenção médica quando estivesse próxima da morte. Ela preencheu a papelada com este efeito e oficializou tudo, com seu marido servindo como procurador no caso de se tornar incapaz de tomar suas próprias decisões. Logo veio o inevitável ponto em que Ella, presa numa cama de hospital e perto de morrer, começou a ter dificuldades de respirar. Um dos muitos médicos dela disse para seu marido: “Ela está se debatendo muito. O senhor não quer que a coloque num respirador?” Pensando que o médico sabia melhor, o marido consentiu e ela foi colocada no respirador artificial.
Aquele momento de escolha virou sete longos dias de arrependimento.
Apesar de seus desejos, Ella permaneceu semi-viva na unidade de terapia intensiva com “tubos em toda parte” e uma máquina respirando por ela durante uma semana. De acordo com McGregor, o marido então teve que tomar a responsabilidade por retirar a ajuda. “Ele estava devastado”, disse McGregor. “Ele sentiu que tinha traído sua mulher durante a última semana de vida dela… Você podia ver aquela dor.”
McGregor, um especialista em hospices (que permitem a doentes terminais conforto em vez de tratamentos agressivos) e medicina paliativa (com foco em aliviar e prevenir sofrimento), disse que a experiência de Ella é mais comum do que se pensa.
“Vi pacientes morrerem na UTI aos poucos e a família não podia nem chegar perto.”
Além disso, apesar de a maioria das pessoas desejarem morrer em casa perto dos seres amados, 70% morrem no hospital ou na clínica após um longo embate contra um câncer avançado, falência cardíaca, doença incurável ou incapacidades múltiplas da velhice.
Quando perguntados sobre a diferença e por que médicos não tendem a colocar a si mesmos em respiradores em UTIs no fim de suas vidas como aconteceu com Ella, McGregor foi sombrio.
“Frequentemente a questão não é bem colocada”, disse McGregor, como: “Nós temos duas opções aqui: nós podemos tentar de tudo ou nós podemos administrar agressivamente seus sintomas e mantê-lo confortável. O que seria qualidade de vida para você?”
Médicos, ele disse, tendem a escolher a opção 2, porque viram o que viram, e “sabem que uma intervenção pode gerar um efeito cascata.”
Dr. Kevin Ryan, médico aposentado e escritor, coloca de uma forma diferente: “Médicos viram (morte e morrer) de todas as perspectivas, exceto acontecendo com eles.”
“Quando você está perto do fogo, sabe como pode se queimar.”
Medicina e hospitais existem para combater doença e morte, é assim que se pensa, então se o paciente morre, o médico falhou.
McGregor lembra das aulas de habilidades clínicas que assistiu na faculdade de medicina com uma lista de passos que um médico deveria seguir, concluindo com as palavras: “Se o paciente morre, eu falhei”.
“Espera-se de nós que façamos coisas, que consertemos coisas”, disse McGregor. “Médicos se sentem impotentes se não podem oferecer alguma coisa e é difícil para eles falar sobre opções que não sejam as agressivas ‘trazer sua saúde de volta’… Um médico pode sentir que falhou diante de um paciente ao dizer ‘Bem, você vai para um centro de cuidados paliativos’. ”
Um informe publicado no ano passado no New England Journal of Medicine diz que 69% dos pacientes com câncer de pulmão e 81% dos pacientes com câncer colo-retal disseram não ter entendido de seus médicos que a quimioterapia não iria curar de todo seu câncer.
Isto acontece por duas razões, diz McGregor.
O paciente ou a família podem frequentemente vir com enormes expectativas não-realistas, algumas vezes reforçadas por crenças populares. Muitas veem a respiração artificial, por exemplo, como algo que salva vidas, mas na verdade ela raramente é eficaz. “Existe uma percepção equivocada que a medicina pode consertar tudo”, ele diz. “E há também um sentimento de ter direito a isso algumas vezes –’você deveria me dar tudo’.”
Infelizmente, uma outra razão pelas quais médicos algumas vezes “fazem tudo” com pacientes terrivelmente enfermos é o medo de sofrer processos por má prática de medicina.
“Acho que este é um fator”, disse McGregor. Os outros médicos entrevistados concordam. “Algumas vezes os médicos dizem ‘ok, nós lhe daremos tudo’, mesmo que saibamos que não irá ajudar, como um modo de não nos enredarmos numa ação legal de alguém da família que achou que deveria haver mais procedimentos”, disse.
Para seu próprio desejo de fim da vida, se ele se encontra com uma doença terminal, seu desejo é morrer em casa sem intervenções e com a assistência de centros de cuidados paliativos.
“Brinco que tenho ‘NMR’, ‘NTMR’ e ‘PMN’ tatuado no meu peito”, disse McGregor (não me ressuscite, não tente me ressuscitar e permita morte natural).
“Simplesmente não me entube”, especifica.
‘De jeito nenhum farão isso comigo’
Dr. Michael GuntherMaher, diretor médico do Sacramento and Roseville Kaiser conta a história de Sophie.
Mulher negra de 88 anos, Sophie (não é seu nome real) deu entrada no Kaiser poucos meses atrás com um histórico de rápida perda de peso
e uma infecção chamada sepse, disse GuntherMaher. “Fizemos alguns testes e vimos que ela estava anêmica. Escaneamos seu abdômen… e achamos uma massa. Estava claro que tinha câncer”, disse.
Já no começo Sophie falou que queria que os médicos fizessem todo o possível para salvar sua vida, disse GuntherMaher. Com a família insistindo fortemente, o hospital imediatamente começou com intervenções e remédios. “E esta mulher morreu lentamente na UTI com um tubo na garganta”, disse. “Finalmente a família disse: ‘tire-a da máquina’. Foi um difícil e prolongado final de vida quando não havia não havia nenhuma chance razoável de que isso fosse funcionar.”
GuntherMaher, que tinha sido consultado sobre o caso de Sophie como um especialista em cuidados paliativos, refletiu que a mulher perdeu a chance de retornar a Oakland para morrer suavemente, em seu ambiente, “ao redor de amigos e família que queriam visitá-la e dizer adeus… Aquela oportunidade foi completamente perdida”.
“Tenho um monte de histórias como essa. O hospital está cheio delas.”
GuntherMaher vê o caso de Sophie como um exemplo do que ele chama de caos que acompanha muitos cenários de final da vida.
“Um monte de mudanças na vida acontecem nos últimos anos, e as famílias não estão preparadas para a doença”, ele diz. “A doença existe. As pessoas entram e saem de hospitais ou casas de repouso. Eles estão nestes lugares mesmo apesar de estarem acostumados a pensar ‘eu nunca quero estar assim’. Mas eles estão. E isto é caótico.”
Foi um desejo de colocar ordem nesta turbulência do final da vida que colocou GuntherMaher na rota do seu posto atual no Kaiser.
“Acho que a maioria das pessoas… o que têm é medo”, ele disse. “Estão com medo. Estão confrontados. Há coisas a terminar. Eles não podem aceitar que irão chegar ao fim deste jeito porque estão pouco preparados.”
Esse estado mental, diz, frequentemente pavimenta o caminho para que suas famílias aceitem todos os procedimentos oferecidos, não importa que sejam agressivos.
GuntherMaher acredita que os pacientes deveriam estar aptos a escolher por eles mesmos se vão ou não ser submetidos a tratamentos perto do fim da vida. “Sou a favor que as pessoas escolham”, ele diz, “desde que isto seja informado.”
Questionado por que médicos morrem de maneira diferente, como na tese de Murray, GuntherMaher respondeu: “Médicos são diferentes”.
“Como grupo, tendemos a estar no final do espectro onde se acham as pessoas inteligentes, capazes. Então, se você pega gente assim e as expõe a estas complexidades e dificuldades uma e outra vez, elas irão levar em conta e processar isto.
Outro aspecto que nós (médicos) somos capazes de fazer é conciliar aspectos psicológicos, a falência biológica, com os mais difíceis temas humanos. O que é a vida? O que é a morte? Do que se trata? Nos confrontamos com isso quase todo dia, como ninguém mais em nossa sociedade, exceto talvez pastores.”
GuntherMaher disse que os médicos com quem se relaciona estão no hospital diariamente e “a maioria deles, quando externa sua opinião sobre (intervenções no final da vida), diz basicamente: ‘de jeito nenhum que farão isso comigo’.”
Não foi surpresa descobrir que as escolhas de GuntherMaher sobre seu próprio final de vida ecoam as dos outros doutores no estudo da Johns Hopkins. Em realidade, meses atrás, ele reuniu os três filhos de 20 e poucos anos para falar sobre seus desejos. “Colocamos minha filha e meu genro no FaceTime do Ipad”, disse. GuntherMaher deu suas instruções e mostrou aos filhos um formulário POLST (ordens médicas para tratamento de vida assistida, na sigla em inglês), declaração sobre que tipo de tratamento médico doentes seriamente enfermos querem para si mesmos.
“Acho que isso nos deu uma boa oportunidade para ser uma família e falar sobre coisas significativas juntos, praticar o saber ouvir e falar profundamente uns com os outros”, disse. “Fazer considerações, por um momento, sobre este período da vida é precioso.”
Entre outras coisas, GuntherMaher lhes falou: “Não quero ser ressuscitado se meu coração parar. Não quero ser colocado em ventilação mecânica. E quando meu momento chegar, quero morrer em minha casa.”
‘Medicina não pode consertar tudo’
Dr. Jeffrey Yee está de frente a seus alunos –camisa cinza de botões, jaqueta e um pager de bolso– com todo o carisma amigável de um professor de ciências sociais. Mas ele é um médico que deixa por um tempo suas consultas particulares como clínico-geral para ensinar idosos e pacientes cronicamente doentes sobre as instruções e formulários POLST. O público de Yee no início de setembro consistia em 14 pacientes idosos –muitos deles pareciam lutar com doenças crônicas ou câncer.
Yee, que testemunhou em 1997 a favor do POLST antes da aprovação no Estado, faz uma apresentação em PowerPoint para seus estudantes sobre as instruções e a importância de nomear um procurador para cuidados com a saúde. Ele e uma enfermeira inclusive encenam um pequeno esquete onde fazem o papel de dois irmãos com diferentes interpretações sobre o que o médico recomendou que deveria ser feito com uma mãe no caso de assistência à vida.
“Tentamos fazer com que as pessoas considerem essa problemática, tenham conversas sobre isso”, Yee disse antes da aula. “Tentamos que as pessoas experimentem as tensões e os desafios que terão que enfrentar no futuro.”
Yee não usa “final da vida” ou a palavra “morte” em seus seminários. Nem discute procedimentos específicos ou possíveis consequências. “Quando você reduz isto a uma conversa sobre ‘este procedimento dura tanto tempo’, isto realmente não proporciona um bom quadro”, ele diz. “Que número poderia representar ‘pequena chance de sucesso’?” Se você tem 95, você responderia esta questão de forma diferente do que se tem 30 e três filhos.
Curiosamente, Yee –o mais novo dos médicos entrevistados– foi o único médico que não disse imediatamente que iria declinar de intervenções se ele mesmo se deparasse com uma doença terminal. “Depende da situação”, ele diz. “Não sei se eu poderia estabelecer isto tão especificamente agora”.
Um outro programa que poderia resultar para reduzir o fosso entre médicos e o resto de nós nas escolhas de final da vida é chamado ROYL, sigla para “resto da sua vida” (em inglês).
Dr. Philip Lisagor, cirurgião cardio-torácico aposentado e chefe médico do ROYL em Reno, Nevada, teve um estalo no final de sua carreira: “Me dei conta que ninguém estava falando com pacientes com doenças sérias sobre o que estava acontecendo”, disse.
“Um jogo está sendo jogado aí”.
Lisagor observa que o fator lucro não pode ser desprezado quando se discute por que este fosso existe, e por que tantos médicos frequentemente encorajam intervenções que eles mesmos não escolheriam. “A indústria da assistência médica faz muito dinheiro com os cuidados no fim da vida”, diz. De fato, cerca de 27% do orçamento anual de 327 bilhões de dólares do Medicare (seguro de saúde
governamental nos EUA) são destinados a pacientes em seu último ano de vida.
“Todo mundo no sistema lucra com mais procedimentos”, disse Lisagor, “incluindo médicos, hospitais, companhias farmacêuticas, centros de diagnósticos etc. É um problema enorme.”
“Há uma mudança cultural acontecendo no país”, disse Murray, o médico do ensaio polêmico. “O tabu está acabando, as pessoas querem falar sobre isso… Demorará, mas acredito que está acontecendo.”
Os médicos entrevistados para esta reportagem também concordaram que as coisas estão melhorando. “Sim”, disse McGregor. “As pessoas precisam entender que existe a possibilidade de ter uma morte confortável, de morrer cercado por seres queridos. As pessoas precisam entender que é uma opção real e viável.”
“E necessitam entender que a medicina não pode consertar tudo.”
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